Texto e pesquisa: Max Pita
Revisão técnica: Rackell Mendonça, psicóloga e neuropsicóloga, responsável técnica — CRP 04/53298
Ajuda imediata
Se você ou alguém próximo corre risco de tentar suicídio ou de se ferir agora, não deixe a pessoa sozinha. Procure uma UPA 24 horas, um pronto-socorro ou um hospital, ou acione o SAMU pelo número 192.
Para apoio emocional gratuito e sigiloso, ligue para o CVV pelo número 188, disponível 24 horas por dia. O CVV oferece escuta e apoio emocional, mas não substitui um serviço de urgência.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação ou atendimento realizado por profissional de saúde.

Suicídio não é um tema proibido. Também não deve ser tratado como um conteúdo comum. O silêncio pode deixar uma pessoa isolada, sem saber como pedir ajuda. A exposição irresponsável também pode causar dano.
O Setembro Amarelo é importante quando oferece informação correta, combate o estigma e mostra onde existe ajuda. Perde o sentido quando se resume a uma imagem amarela, uma frase motivacional ou uma ação de divulgação de quem publica.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos. No Brasil, o Ministério da Saúde contabilizou 15.507 mortes por suicídio em 2021. Os números mostram a dimensão do problema, mas não autorizam explicações simples. O suicídio é um fenômeno complexo, influenciado por fatores sociais, culturais, psicológicos, biológicos, econômicos e ambientais que se combinam de maneiras diferentes em cada situação.
O que é o Setembro Amarelo
O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização e prevenção do suicídio. Durante o mês, serviços de saúde, escolas, empresas, instituições públicas e organizações da sociedade civil ampliam as conversas sobre sofrimento emocional, busca por ajuda e formas de cuidado.
O dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. A data foi criada em 2003 pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio, em conjunto com a Organização Mundial da Saúde, para colocar o assunto na agenda pública e estimular ações de prevenção.
No Brasil, a campanha foi construída em etapas. Em 2013, a Associação Brasileira de Psiquiatria — ABP — deu notoriedade nacional à iniciativa. Desde 2014, a ABP e o Conselho Federal de Medicina — CFM promovem sua divulgação conjunta e ampliam a participação de outras instituições. Nos anos seguintes, o Centro de Valorização da Vida — CVV — e diferentes organizações também ajudaram a espalhar a mobilização pelo país.
Em 2025, a Lei nº 15.199 instituiu oficialmente a campanha Setembro Amarelo em todo o território nacional. A lei também definiu 10 de setembro como o Dia Nacional de Prevenção do Suicídio e 17 de setembro como o Dia Nacional de Prevenção da Automutilação.
Como surgiu o símbolo amarelo
A origem do símbolo amarelo remonta a 1994, nos Estados Unidos. Depois da morte por suicídio de Mike Emme, de 17 anos, familiares e amigos colocaram em papéis amarelos uma mensagem para que pessoas em sofrimento conversassem com alguém, acompanhada de telefones de ajuda. Adolescentes prenderam fitas amarelas a 500 desses papéis e começaram a distribuí-los.
A mobilização deu origem ao Yellow Ribbon Suicide Prevention Program. O amarelo passou a representar uma mensagem direta: mesmo quando alguém não consegue explicar tudo o que está acontecendo, ainda pode sinalizar que precisa de ajuda.
O programa norte-americano, o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio e a campanha brasileira não começaram juntos. São iniciativas de épocas e organizações diferentes que passaram a compartilhar a cor amarela e o objetivo de ampliar a prevenção.
Essa história deve ser contada sem transformar uma morte em espetáculo. Não é necessário divulgar como a pessoa morreu, reproduzir imagens ou mensagens privadas, procurar culpados ou criar uma narrativa romântica. O que importa é a resposta construída depois: facilitar o pedido de ajuda e aproximar pessoas em sofrimento de quem possa ouvi-las e encaminhá-las para cuidado.
Por que o Setembro Amarelo é importante — e por que um mês não basta
Muitas pessoas evitam falar sobre pensamentos suicidas por medo de julgamento, vergonha, culpa ou dificuldade para descrever o que estão vivendo. Familiares e amigos podem perceber mudanças, mas não saber se devem perguntar ou como iniciar a conversa.
Falar com responsabilidade pode abrir um caminho para o cuidado. Também permite divulgar serviços de saúde, corrigir informações falsas e lembrar que sofrimento intenso não deve ser tratado como drama, fraqueza, falta de fé ou simples tentativa de chamar atenção.
Mas uma campanha de um mês não substitui uma rede de cuidado. Prevenção exige serviços acessíveis, profissionais preparados, acompanhamento depois de uma crise e articulação entre família, escola, trabalho, comunidade e sistema de saúde.
Condições de saúde mental, uso prejudicial de álcool e outras drogas, tentativa anterior de suicídio, violência, discriminação, isolamento, perdas, conflitos, dificuldades financeiras, sofrimento no trabalho, dor e doenças crônicas podem aumentar a vulnerabilidade. Nenhum desses fatores, isoladamente, explica ou determina uma morte por suicídio.
O Setembro Amarelo pode iniciar uma conversa. A prevenção não pode terminar quando setembro acaba.
Falar pode prevenir. Falar errado pode promover imitação
Não basta falar sobre suicídio. É preciso observar o que está sendo dito, como está sendo dito e para quem o conteúdo será mostrado.
Uma conversa privada, direta e cuidadosa pode ajudar uma pessoa a revelar o que está vivendo. Já a divulgação pública de uma morte, quando feita de maneira repetitiva ou sensacionalista, pode aumentar o risco entre pessoas vulneráveis. Isso acontece quando o método é descrito, a pessoa é transformada em símbolo ou o suicídio é apresentado como resposta compreensível, inevitável ou eficaz para um problema.
Esse risco de imitação é conhecido como efeito Werther. Uma revisão sistemática e metanálise publicada no BMJ encontrou aumento de 13% nas mortes por suicídio após a cobertura da morte de uma celebridade. Quando a reportagem divulgava o método, a associação com mortes pelo mesmo método era maior. Isso não significa que toda menção ao suicídio provoque novas mortes. Significa que a forma da comunicação importa.
O movimento contrário é chamado de efeito Papageno. Ele descreve o potencial protetivo de conteúdos que mostram pessoas atravessando uma crise, procurando ajuda, recebendo apoio e encontrando outras formas de lidar com o sofrimento. O foco deixa de ser a morte e passa para as alternativas, os vínculos e o cuidado. A Organização Mundial da Saúde recomenda que a comunicação pública dê espaço a histórias de superação da crise, esperança e recuperação.
Uma comunicação prejudicial costuma:
- usar títulos alarmistas ou tratar uma morte como espetáculo;
- descrever o método ou o local de maneira detalhada;
- publicar fotografias da cena, cartas de despedida ou últimas mensagens;
- repetir excessivamente imagens e informações sobre o caso;
- romantizar a pessoa ou apresentar o suicídio como coragem, libertação ou solução;
- atribuir a morte a uma única causa, como término de relacionamento, dívida, demissão ou diagnóstico;
- procurar culpados antes que os fatos sejam conhecidos;
- divulgar o caso sem informar onde buscar ajuda;
- usar o sofrimento como oportunidade de autopromoção ou venda de serviços.
Uma comunicação responsável procura:
- usar as palavras suicídio, pensamentos suicidas e morte por suicídio de forma direta e neutra;
- explicar que o fenômeno é complexo e não possui uma causa única;
- não divulgar métodos, cenas ou conteúdo privado;
- corrigir mitos sem prometer resultados;
- apresentar possibilidades de cuidado, tratamento, recuperação e apoio;
- informar canais públicos, serviços de urgência e fontes confiáveis;
- manter o assunto em discussão durante todo o ano, não apenas em setembro.
Antes de encaminhar uma publicação, vale verificar se ela informa sem expor. Usar a cor amarela não transforma automaticamente um conteúdo em prevenção.
Perguntar sobre suicídio coloca a ideia na cabeça da pessoa?
Não. Perguntar de forma direta, calma e privada não coloca a ideia de suicídio na cabeça de alguém. Uma revisão de estudos com adultos e adolescentes não encontrou aumento significativo de pensamentos suicidas entre pessoas questionadas sobre o assunto.
Perguntar diretamente a alguém que demonstra sofrimento é diferente de divulgar para milhares de pessoas os detalhes de uma morte. Uma é uma conversa de cuidado. A outra é exposição pública e exige regras específicas de segurança.

Conversa de escuta e apoio. Imagem ilustrativa gerada por IA.
Se você está preocupado com alguém, pode dizer:
“Tenho percebido que você não está bem e quero perguntar de forma direta: você tem pensado em suicídio?”
Outra possibilidade é relacionar a pergunta ao que foi observado:
“Percebi que você está mais isolado e que tem falado que não vê saída. Você está pensando em suicídio?”
Não faça a pergunta como acusação nem demonstre choque diante da resposta. Evite sermões, discussões e frases prontas. O primeiro passo é ouvir. O segundo é verificar se existe perigo imediato e procurar ajuda adequada.
O que fazer quando a resposta é “sim”
Receber uma resposta afirmativa pode assustar. Ainda assim, esse não é o momento de discutir, minimizar ou tentar resolver tudo sozinho.
- Mantenha a calma e permaneça presente. Agradeça a confiança e deixe claro que você levará a fala a sério. Uma resposta possível é: “Obrigado por me contar. Eu vou ficar com você e vamos procurar ajuda.”
- Pergunte sobre o perigo atual. Você pode perguntar: “Você acredita que pode fazer algo contra si agora?” e “Você tem um plano para isso?”. Perguntas diretas ajudam a entender a urgência sem exigir que a pessoa descreva detalhes do método.
- Não tente classificar o risco sozinho. A ausência de um plano declarado não significa que a situação seja segura. Observe o conjunto da conversa e procure orientação profissional.
- Se houver intenção atual, plano, acesso a meios ou dúvida sobre a segurança, não deixe a pessoa sozinha. Procure imediatamente uma UPA, um pronto-socorro ou hospital, ou acione o SAMU pelo número 192.
- Reduza o acesso a meios que possam causar dano, quando isso puder ser feito com segurança. Não tente tomar um objeto à força nem confronte a pessoa se isso puder aumentar o perigo. Afaste-se e acione o serviço de emergência quando houver risco para qualquer pessoa presente.
- Envolva alguém de confiança. Entre em contato com um familiar, responsável ou pessoa indicada por ela. Não prometa guardar segredo quando existe risco à vida.
- Mesmo sem perigo imediato aparente, ajude a pessoa a chegar ao cuidado. Ofereça-se para acompanhá-la a uma Unidade Básica de Saúde, CAPS ou profissional de saúde mental. Se possível, ajude a marcar o atendimento e mantenha contato depois.
O CVV 188 pode oferecer escuta durante um momento difícil, mas não substitui o SAMU, uma UPA, um pronto-socorro ou um hospital em situação de risco imediato.
O que evitar nessa conversa
Algumas respostas fecham a conversa e aumentam o isolamento. Evite frases como:
- “Isso é drama.”
- “Você tem tudo e não tem motivo para estar assim.”
- “Pense positivo.”
- “Isso é falta de fé.”
- “Você só quer chamar atenção.”
- “Prometa que nunca fará isso.”
Também não desafie a pessoa, não use culpa e não tente provar que os problemas dela são pequenos. Escutar não significa concordar com a ideia de morrer. Significa reconhecer que o sofrimento existe e ajudar a pessoa a chegar a um cuidado seguro.
Você não precisa assumir sozinho a responsabilidade pela vida de outra pessoa. Seu papel pode ser permanecer presente, buscar ajuda e construir uma ligação com a rede de cuidado.
Onde buscar ajuda
O Ministério da Saúde indica diferentes pontos de atendimento:
- Risco imediato: UPA 24 horas, pronto-socorro, hospital ou SAMU pelo número 192.
- Acompanhamento pelo SUS: Unidade Básica de Saúde — UBS — e Centro de Atenção Psicossocial — CAPS.
- Apoio emocional: Centro de Valorização da Vida — CVV 188, ligação gratuita, sigilosa e disponível 24 horas por dia.
- Cuidado continuado: acompanhamento com profissionais de saúde mental, de acordo com as necessidades de cada pessoa.
Consultórios e clínicas de psicologia podem participar do cuidado continuado, mas não substituem serviços de urgência. Em uma situação de perigo imediato, não espere o próximo horário de consulta.
Setembro termina. A prevenção não
Iluminar um prédio, usar uma fita amarela ou publicar uma mensagem pode chamar atenção para o assunto. A ação só produz valor quando oferece informação correta e indica caminhos reais de cuidado.
Prevenção também significa fortalecer serviços públicos, manter acompanhamento depois de uma crise, enfrentar violência e discriminação, cuidar das condições de trabalho, apoiar familiares e garantir que as pessoas encontrem escuta antes que a situação chegue ao limite.

Cuidado continuado. Cena ilustrativa gerada por IA; não é um registro da clínica.
O Setembro Amarelo é importante porque coloca o suicídio no debate público. Para cumprir essa função, precisa evitar sensacionalismo, simplificação e uso comercial do sofrimento. O objetivo não é conseguir atenção para quem publica. É fazer a informação chegar a quem precisa dela sem aumentar o risco.
Silêncio não é proteção. Exposição irresponsável também não. Comunicação preventiva é direta: nomeia o problema, evita detalhes nocivos, apresenta possibilidades de cuidado e informa onde buscar ajuda.
Sobre o autor
Max Pita é responsável pela pesquisa e redação deste artigo para a Clínica de Psicologia Rackell Mendonça.
Sobre a revisão técnica
Rackell Mendonça é psicóloga, neuropsicóloga e responsável técnica pela Clínica de Psicologia Rackell Mendonça. CRP 04/53298.
Referências consultadas
- Organização Mundial da Saúde — Suicide: fact sheet.
- Organização Mundial da Saúde — Preventing suicide: a resource for media professionals, update 2023.
- Ministério da Saúde — Suicídio: prevenção, sinais de alerta e onde buscar ajuda.
- Ministério da Saúde — Boletim Epidemiológico, volume 55, nº 4, 2024.
- Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio — História do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.
- Setembro Amarelo — site oficial da campanha no Brasil.
- Associação Brasileira de Psiquiatria — Campanha Setembro Amarelo.
- Lei nº 15.199, de 8 de setembro de 2025.
- Yellow Ribbon Suicide Prevention Program — História do programa.
- Conselho Federal de Psicologia — Exposição na mídia de casos de suicídio pode causar efeitos prejudiciais.
- Niederkrotenthaler et al. — Role of media reports in completed and prevented suicide: Werther v. Papageno effects.
- Niederkrotenthaler et al. — Association between suicide reporting in the media and suicide: systematic review and meta-analysis.
- Dazzi et al. — Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation?.
- Centro de Valorização da Vida — CVV.
Livros e materiais recomendados
- BOTEGA, Neury José. Crise suicida: avaliação e manejo. 2ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2022. Página da editora.
- BERTOLOTE, José Manoel. O suicídio e sua prevenção. São Paulo: Editora Unesp, 2013. Página da editora.
- CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Suicídio e os desafios para a Psicologia. Brasília: CFP. Acesso gratuito.
- CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA. Suicídio: informando para prevenir. Acesso gratuito.

